sábado, 29 de março de 2008

Observação

Uma pessoa mais observadora do que eu, na certa teria me observado antes que eu a observasse. Talvez nem precisasse assim de tanta atenção para perceber que eu não estava apenas olhando algo ou alguém. Estava criticando. Afinal, o que separa a observação da crítica é apenas uma linha, tão fina quanto a seda de uma dessas aranhas de canto de rodapé. Essa linha é a mesma que costura as desavenças entre ódio e amor, entre tristeza e felicidade, que zigue-zagueia entre toda uma gama de contrários que se harmonizam, cozendo as barras do equilíbrio precário entre bem e mal.
Aproximadamente sete e meia da noite, eu estava sentado num dos inúmeros bancos do lugar, rodeado de gente por tudo que é lado. Embora todos eles estivessem ali, quase se esfregando em mim, eu era uma espécie de ilha. O próprio conceito de ilha se refere à idéia de uma certa porção de terra, cercada de água por todos os lados. Mas ali, eu era uma pessoa cercada de pessoas. Eu poderia ser a terra fértil cercada de deserto ou o deserto envolto em terra fértil. Tudo seria uma questão de ponto de vista.
Geralmente, quando fazemos uma observação, nos referimos ao observado de uma maneira superficial, sugerindo um possível aprofundamento. Quando esse aprofundamento ocorre, ou estamos fazendo um estudo ou estamos criticando. Sem perceber, acabei deixando com que a tal linha, citada anteriormente, se rompesse. E pro lado da crítica.
Tudo começou quando a criança chata e inquieta arremessou longe o prendedor de cabelo, composto por uma pequena boneca cor-de-rosa, insuportavelmente brilhante, e um patuá de bolinhas nas sete cores do arco-íris. Por um instante, tive a insana idéia de que aquilo era uma alusão ao movimento gay. Larguei de lado essa teoria pensando na idade da fedelha. Cinco ou seis anos no máximo. Se ela tiver de brincar de médico com outra menina, na certa vai descobrir seu talento como ginecologista na adolescência, não na infância. O prendedor, que ficou desaparecido por alguns longos minutos, foi o pretexto perfeito que toda aquela gente precisava para se dispersar, afinal, não precisariam prestar tanta atenção no que ouviam, nem sequer no choro estridente da criança. Enquanto se abaixavam para procurar, aproveitavam para fazer comentários maliciosos, ou suspirar a impaciência, ou anunciar à parceira a escolha do motel para o qual iriam depois dali.

Terminadas as buscas, era hora de voltar o olhar para o Altar, que obviamente, ficava diante de todos nós. Inclusive da mulher que estava à minha frente, que tinha o cabelo impregnado por um cheiro adocicado, extremamente enjoativo, mas gostoso. Aquilo estava me lembrando os tempos de infância, quando sentia a garganta inflamar e corria de casa para o consultório médico, do consultório para a farmácia e da farmácia, de volta para a casa. Pra tomar antibiótico! É... Garganta inflamada, naquela época, era motivo de festa, já que o remédio tinha um sabor agradável e ainda era administrado naqueles copinhos que vêm em cima da tampa do frasco. O nome do medicamento? Amoxil, que tinha gosto e cheiro de morango. Que tinha o cheiro do cabelo da mulher. Outro dia me disseram que já existe uma versão genérica do Amoxil. Se não me engano, chama-se Amoxicilina, e parece ter o mesmo sabor e aroma da versão original. Se o efeito é o mesmo eu não sei, mas pelo menos agora garganta inflamada já cabe no bolso do típico cidadão brasileiro mão-de-vaca.
Chega de críticas. É hora de fazer a doação. A “cestinha” se aproxima, repleta das moedas lançadas por um médico de feições turco-afegãs. Talvez seja ele quem vá emitir o meu receituário médico, quando minha goela inflamar mais uma vez. Se ele sentiu o mesmo cheiro que eu, vai me mandar comer xampu.

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