8 da manhã.
Tenho a infelicidade de escutar meu telefone clamando por atenção, ou pedindo pra que meu braço se esticasse e o arremessasse contra a parede mais próxima. Felizmente não tive tal impulso e tentei não pensar que já estava na hora de acordar pra assistir a mais uma missa, às 9.
Inevitavelmente, entre os apitos insuportáveis do celular e a hora em que me levantei, fiquei imóvel, com o corpo pesado e amarrado à minha cama, com a alma vagando em torno de mim mesmo e os pensamentos fugindo do meu controle, insistindo em me trazer lembranças que eu até então julgava ter esquecido. E conforme o tempo ia passando, escutava cada vez mais alto o soar do despertador do telefone, de 5 em 5 minutos, mas já não podia mais fazê-lo parar. Meus braços estavam pesados demais para se esticarem mais uma vez.
8:45.
Uma voz mais forte que as vozes que me assombravam me chama pelo nome, num ar de impaciência. Eu escutava, mas não sabia de onde vinha, até que a mão fria de minha mãe me tocou os cabelos e a orelha e pela milionésima vez, sua voz chamou meu nome.
8:50.
Me levanto atônito, preocupado com o horário e começo a me trocar tão rápido, que não me lembro de qual roupa vesti, se as peças combinavam entre si ou mesmo se as meias que calcei faziam o par. Chego um pouco atrasado e mais uma vez fico sem lugar para me sentar. Pego o folheto e sigo em direção à escada, pra pegar algum degrau desocupado e cair sentado ali mesmo, de modo que eu pudesse esticar as pernas e encostar no degrau de cima. Começo a ler o folheto e dessa vez, o título me impressiona, me dá uma sensação diferente, de um vazio que “preencheria” meu dia, homônimo ao folheto: O Domingo. O tempo passa. Olho o relógio a cada segundo, tendo a impressão de que já se passara muito mais tempo do que os eternos cinco minutos de missa. O padre fala, a multidão canta em desafinação total com meus ouvidos, eu sussurro baixinho pra mim mesmo o que realmente eu queria naquele momento. Hora da comunhão. Sorrio feliz ao ver, no canto oposto ao que eu estava, minha tia, que prefiro chamar de mãe, mas nunca tive coragem o bastante para fazê-lo. Talvez por medo da reação dela. Talvez por medo da reação da minha mãe de verdade. Ando sem combinar um passo com o outro, devagar o bastante pra reparar que as pessoas me olhavam. Reparando no meu rosto, na minha expressão triste, ou no meu novo corte de cabelo. Observo as crianças ao meu redor, pedindo colo aos seus pais, que as carregam com um enorme sorriso no rosto. Um sorriso satisfeito, de quem será eternamente agradecido por poder sentir em seus braços, um filho seu. E me perguntei se um dia eu chegarei a sentir isso, mas não quis me responder. Não me respondi por medo da resposta. Preferi continuar andando, rumo às Hóstias, sem perceber que uma senhora, que caminhava contra mim, me hipnotizara com seu olhar cansado, um jeito disritmado de andar, e um sorriso no rosto, que mesmo parecendo sincero, sugeria apenas um disfarce pra toda a sua mágoa, todo o seu cansaço. Em poucos segundos, tive a impressão de ter passado horas vendo aquela cena, que terminou num estalo, ao sentir aquela velha senhora passando por mim. Foi o que me fez ver que eu era o próximo a comungar.
"Corpo de Cristo filho", foi o que ela, minha “tia-mãe” me disse, sorrindo belissimamente, não só com a boca, mas com o rosto todo. De um jeito que eu nunca tinha visto até hoje e acariciou leve e rapidamente a minha mão, que tremia junto à Hóstia, sem eu saber o por quê. Reergui a cabeça, tentei trocar em vão uns 2 ou 3 passos sem me sentir vazio por dentro. Ajoelho-me em frente ao Santíssimo e começo a rezar. Rezo por mim, rezo por todos, rezo pelo meu futuro, pelo nosso futuro. E o vazio então começa a se acabar. Finalizo a oração agradecendo pelas bênçãos derramadas sobre mim, sobre minha família, sobre meus amigos, sobre quem me faz bem e feliz. E refaço mais uma vez os meus pedidos, agora com muito mais força e muito mais fé do que antes. Peço pelas bênçãos. Peço para que o amor não se acabe, nunca.
"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém." Me sento no banco da capela, agora desocupado e já me vejo livre dos pensamentos torturantes, mas ainda sentindo algo estranho, que insistia em me apertar e me deixar sem fôlego. Sabia que era pecado me sentir tão desconfortável dentro daquele lugar. Se não era pecado, era no mínimo uma heresia disfarçada. O que dá na mesma.
9:55.
A missa acaba.
Volto para casa sem sentir o chão sobre os meus pés, nem o ar entrando nos meus pulmões. Alguns minutos depois me vejo sentado em uma mesa de bar, sozinho, esperando pela minha família, meus pais e minhas irmãs. Que não são meus pais, nem minhas irmãs de verdade. Peço uma garrafa de guaraná e sinto que aquilo está amargo, como se estivesse bebendo do mais puro e fétido fel. Como se meu péssimo astral tivesse se apoderado de tudo e de todos ao redor, inclusive daquela garrafa. As pessoas chegam. Por algumas horas esqueço do meu dia deprimente e até arrisco algumas gargalhadas. E vejo um senhor numa cadeira de rodas, com oitenta e poucos anos, vindo em nossa direção, acompanhado de uma senhora de setenta e tantos. Eles se sentam em nossa mesa e me coloco a prestar atenção nos dois. A senhora é dona de uma expressão apática, de certa forma, imponente sobre todos os outros da mesa. Mas sabíamos que ela era uma senhora forte, batalhadora e que apesar dos pesares, sustentava um louco amor pelo seu marido, agora caído sobre uma cadeira de rodas, um senhor de poucas palavras, expressão deprimida e voz baixa, como se quem tivesse medo da própria voz. Sim. Meus avós. Que tanto já me fizeram bem e hoje me deixam receoso em relação ao amanhã. A realidade dói. Dói saber que brevemente, eles podem já não estar mais aqui. E novamente, meu corpo pesa sobre a cadeira vermelha do bar e começo a me sentir mal. E esse sentimento se prolonga, me consome, me faz querer sair de órbita e nunca mais voltar. Volto pra casa empurrando meu avô na cadeira de rodas.
Vejo seu rosto cada vez mais magro, e noto que apesar de tudo, ele ainda mantém um olhar feliz, como se seus olhos, saltitantes até, revelassem que tudo valeu a pena. Ou que ele se sente alegre, por estar todo lambuzado de ChicaBon, como se tivesse voltado aos tempos de criança. Sorrio por achar a cena engraçada, mas mantenho a minha vontade de chorar, agora por cada boa recordação, cada bom momento que eu vivi ao lado dele e, se Deus quiser, muitos desses momentos ainda virão. Chego em casa. Tudo começa finalmente a mudar. Começo a me sentir bem, feliz. Lembro-me do céu de quatro horas da manhã, da benção derramada pelas estrelas sobre mim e mais uma pessoa, que me deixa alegre, que me dá forças pra levantar o olhar e seguir em frente. De uma pessoa que já ocupa meus pensamentos e meu coração há três semanas. E então tudo o que há de ruim dentro de mim, desaparece, deixando apenas uma sensação de saudade e de vontade de ter tal pessoa por perto, pra dar mais um abraço forte e demorado. Um abraço sincero, quente e gostoso. Sinto meu corpo leve novamente. Tão leve que eu seria capaz de flutuar. E dessa vez, me deixar levar pelos pensamentos bons que sempre existiram em mim, mas que hoje, nesse insuportável domingo, foram ofuscados pelo brilho negro de uma noite mal dormida.
6 da manhã.
Ao som de Lux Aeterna, sinto meus braços e pernas dormentes. Já é hora de dormir. Me preparo para deitar.
6:15.
Tenho a infelicidade de escutar meu telefone clamando por atenção... Felizmente, tudo está bem. Tomado por bons sentimentos e saudades.
Escola às 7.
Tenho a infelicidade de escutar meu telefone clamando por atenção, ou pedindo pra que meu braço se esticasse e o arremessasse contra a parede mais próxima. Felizmente não tive tal impulso e tentei não pensar que já estava na hora de acordar pra assistir a mais uma missa, às 9.
Inevitavelmente, entre os apitos insuportáveis do celular e a hora em que me levantei, fiquei imóvel, com o corpo pesado e amarrado à minha cama, com a alma vagando em torno de mim mesmo e os pensamentos fugindo do meu controle, insistindo em me trazer lembranças que eu até então julgava ter esquecido. E conforme o tempo ia passando, escutava cada vez mais alto o soar do despertador do telefone, de 5 em 5 minutos, mas já não podia mais fazê-lo parar. Meus braços estavam pesados demais para se esticarem mais uma vez.
8:45.
Uma voz mais forte que as vozes que me assombravam me chama pelo nome, num ar de impaciência. Eu escutava, mas não sabia de onde vinha, até que a mão fria de minha mãe me tocou os cabelos e a orelha e pela milionésima vez, sua voz chamou meu nome.
8:50.
Me levanto atônito, preocupado com o horário e começo a me trocar tão rápido, que não me lembro de qual roupa vesti, se as peças combinavam entre si ou mesmo se as meias que calcei faziam o par. Chego um pouco atrasado e mais uma vez fico sem lugar para me sentar. Pego o folheto e sigo em direção à escada, pra pegar algum degrau desocupado e cair sentado ali mesmo, de modo que eu pudesse esticar as pernas e encostar no degrau de cima. Começo a ler o folheto e dessa vez, o título me impressiona, me dá uma sensação diferente, de um vazio que “preencheria” meu dia, homônimo ao folheto: O Domingo. O tempo passa. Olho o relógio a cada segundo, tendo a impressão de que já se passara muito mais tempo do que os eternos cinco minutos de missa. O padre fala, a multidão canta em desafinação total com meus ouvidos, eu sussurro baixinho pra mim mesmo o que realmente eu queria naquele momento. Hora da comunhão. Sorrio feliz ao ver, no canto oposto ao que eu estava, minha tia, que prefiro chamar de mãe, mas nunca tive coragem o bastante para fazê-lo. Talvez por medo da reação dela. Talvez por medo da reação da minha mãe de verdade. Ando sem combinar um passo com o outro, devagar o bastante pra reparar que as pessoas me olhavam. Reparando no meu rosto, na minha expressão triste, ou no meu novo corte de cabelo. Observo as crianças ao meu redor, pedindo colo aos seus pais, que as carregam com um enorme sorriso no rosto. Um sorriso satisfeito, de quem será eternamente agradecido por poder sentir em seus braços, um filho seu. E me perguntei se um dia eu chegarei a sentir isso, mas não quis me responder. Não me respondi por medo da resposta. Preferi continuar andando, rumo às Hóstias, sem perceber que uma senhora, que caminhava contra mim, me hipnotizara com seu olhar cansado, um jeito disritmado de andar, e um sorriso no rosto, que mesmo parecendo sincero, sugeria apenas um disfarce pra toda a sua mágoa, todo o seu cansaço. Em poucos segundos, tive a impressão de ter passado horas vendo aquela cena, que terminou num estalo, ao sentir aquela velha senhora passando por mim. Foi o que me fez ver que eu era o próximo a comungar.
"Corpo de Cristo filho", foi o que ela, minha “tia-mãe” me disse, sorrindo belissimamente, não só com a boca, mas com o rosto todo. De um jeito que eu nunca tinha visto até hoje e acariciou leve e rapidamente a minha mão, que tremia junto à Hóstia, sem eu saber o por quê. Reergui a cabeça, tentei trocar em vão uns 2 ou 3 passos sem me sentir vazio por dentro. Ajoelho-me em frente ao Santíssimo e começo a rezar. Rezo por mim, rezo por todos, rezo pelo meu futuro, pelo nosso futuro. E o vazio então começa a se acabar. Finalizo a oração agradecendo pelas bênçãos derramadas sobre mim, sobre minha família, sobre meus amigos, sobre quem me faz bem e feliz. E refaço mais uma vez os meus pedidos, agora com muito mais força e muito mais fé do que antes. Peço pelas bênçãos. Peço para que o amor não se acabe, nunca.
"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém." Me sento no banco da capela, agora desocupado e já me vejo livre dos pensamentos torturantes, mas ainda sentindo algo estranho, que insistia em me apertar e me deixar sem fôlego. Sabia que era pecado me sentir tão desconfortável dentro daquele lugar. Se não era pecado, era no mínimo uma heresia disfarçada. O que dá na mesma.
9:55.
A missa acaba.
Volto para casa sem sentir o chão sobre os meus pés, nem o ar entrando nos meus pulmões. Alguns minutos depois me vejo sentado em uma mesa de bar, sozinho, esperando pela minha família, meus pais e minhas irmãs. Que não são meus pais, nem minhas irmãs de verdade. Peço uma garrafa de guaraná e sinto que aquilo está amargo, como se estivesse bebendo do mais puro e fétido fel. Como se meu péssimo astral tivesse se apoderado de tudo e de todos ao redor, inclusive daquela garrafa. As pessoas chegam. Por algumas horas esqueço do meu dia deprimente e até arrisco algumas gargalhadas. E vejo um senhor numa cadeira de rodas, com oitenta e poucos anos, vindo em nossa direção, acompanhado de uma senhora de setenta e tantos. Eles se sentam em nossa mesa e me coloco a prestar atenção nos dois. A senhora é dona de uma expressão apática, de certa forma, imponente sobre todos os outros da mesa. Mas sabíamos que ela era uma senhora forte, batalhadora e que apesar dos pesares, sustentava um louco amor pelo seu marido, agora caído sobre uma cadeira de rodas, um senhor de poucas palavras, expressão deprimida e voz baixa, como se quem tivesse medo da própria voz. Sim. Meus avós. Que tanto já me fizeram bem e hoje me deixam receoso em relação ao amanhã. A realidade dói. Dói saber que brevemente, eles podem já não estar mais aqui. E novamente, meu corpo pesa sobre a cadeira vermelha do bar e começo a me sentir mal. E esse sentimento se prolonga, me consome, me faz querer sair de órbita e nunca mais voltar. Volto pra casa empurrando meu avô na cadeira de rodas.
Vejo seu rosto cada vez mais magro, e noto que apesar de tudo, ele ainda mantém um olhar feliz, como se seus olhos, saltitantes até, revelassem que tudo valeu a pena. Ou que ele se sente alegre, por estar todo lambuzado de ChicaBon, como se tivesse voltado aos tempos de criança. Sorrio por achar a cena engraçada, mas mantenho a minha vontade de chorar, agora por cada boa recordação, cada bom momento que eu vivi ao lado dele e, se Deus quiser, muitos desses momentos ainda virão. Chego em casa. Tudo começa finalmente a mudar. Começo a me sentir bem, feliz. Lembro-me do céu de quatro horas da manhã, da benção derramada pelas estrelas sobre mim e mais uma pessoa, que me deixa alegre, que me dá forças pra levantar o olhar e seguir em frente. De uma pessoa que já ocupa meus pensamentos e meu coração há três semanas. E então tudo o que há de ruim dentro de mim, desaparece, deixando apenas uma sensação de saudade e de vontade de ter tal pessoa por perto, pra dar mais um abraço forte e demorado. Um abraço sincero, quente e gostoso. Sinto meu corpo leve novamente. Tão leve que eu seria capaz de flutuar. E dessa vez, me deixar levar pelos pensamentos bons que sempre existiram em mim, mas que hoje, nesse insuportável domingo, foram ofuscados pelo brilho negro de uma noite mal dormida.
6 da manhã.
Ao som de Lux Aeterna, sinto meus braços e pernas dormentes. Já é hora de dormir. Me preparo para deitar.
6:15.
Tenho a infelicidade de escutar meu telefone clamando por atenção... Felizmente, tudo está bem. Tomado por bons sentimentos e saudades.
Escola às 7.

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