sábado, 29 de março de 2008

Quando tristeza e felicidade se fundem

Manhã de quinta-feira, fria como todas as outras, mas não tão fria como o coração de todas as pessoas que insistem em me fazer acreditar que um dia tudo vai mudar. Visto meu jeans, calço meu AllStar e mais uma vez, minha rotina chata e monótona começa a despertar, lentamente, na medida em que vou bombardeando o chão com meus passos, como se me sentisse na pele de algum ciclope, ou um simples mortal pisoteando panfletos de políticos hipócritas. Me prostro na primeira carteira que vejo dentro da minha sala, sem me importar quem senta ali e tento escutar atentamente às não tão sábias palavras de um homem, que preza tanto a honestidade nas pessoas, que se esquece de ser honesto consigo mesmo. É assim todo dia. Ele fala, fala, e não fala nada. Nada faz sentido, nem sequer tenta fazer. Não sei se sinto raiva, ou pena, por ver alguém que não pode se referir a outro assunto alheio à matemática, ou provavelmente futebol, cerveja quente em cima da mesa e sua mulher gelada em baixo da terra. Acho que viuvez faz as pessoas ficarem burras. Ou no mínimo, um tanto estúpidas em relação ao modo de ver as coisas. Pelo menos, é isso que o tal senhor pseudo-culto me passa, a cada frase cuspida, babada e engasgada que sai de sua boca. Então vejo que minha caneta tem apenas um pouco de tinta e rabisco cada palavra indigerível no verso de uma prova, minha tão bem-sucedida prova, que depois de vista, apreciada e praticamente colocada num pedestal, não serve mais para nada, a não ser para ter o verso rabiscado. Então, um texto sem pé nem cabeça começa a surgir dali, e começa a me envolver tanto, e a chamar tanto a atenção do professor, que só me dou conta da força que punha na caneta e da curiosidade no olhar do homem, quando a tinta finalmente acaba. O mais estranho nessa história toda, é que a tinta acabou no meio de uma palavra que eu me recusava a escrever, mas acabei começando por não achar outra, que a substituísse: tristeza. Palavra essa que estava tentando se encaixar num contexto em que eu pudesse explicar, pra mim mesmo, que não há felicidade sem amor, nem amor sem medo, nem medo sem dor, nem dor sem desilusão, nem desilusão sem tristeza. Nem tristeza sem felicidade. Uma é inevitavelmente fundida com a outra, quando começa a aparecer o amor. O amor que traz felicidade, é o mesmo amor que traz medo e insegurança. É o amor que me deixa feliz por experimentar a sensação de ter a pessoa amada ao lado. E é o mesmo amor que me faz andar cabisbaixo pelas ruas, procurando alguma estrela caída no chão, enquanto leio novamente o que eu escrevi e vejo que não faz sentido. Apenas a “trist” fechando mais um parágrafo sem tinta que bastasse para completar a palavra, mas com o sinal de quem ainda tentou escrever. Chego em casa, com aquela prova rabiscada na mão, ligo a TV e nem reparo em que canal está. Apenas escuto vozes de crianças e bichos que falam, algo semelhante a uma tortura psicológica, que pela primeira vez me faz rir, não por ser engraçado ou bonitinho, mas por interpretar maliciosamente uma frase dita por algum dos personagens: “Você vai me comer?”. Desligo a TV, amasso a prova, coloco meu cd pra tocar, pulo a primeira música e escuto cannonball, deitado, com a cabeça debaixo do travesseiro e curtindo a minha feliz trist

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