-Feliz Ano Novo!
-Por quê?
-Por quê o quê?
-Que você está me dizendo isso.
-Ué... Estamos nos primeiros segundos do ano novo. Queria que eu te desejasse "Feliz Páscoa"?
-Não mesmo. Queria apenas que você fosse sincero.
-Não entendi.
-Entendeu sim. Você nunca me desejou nem sequer um "feliz aniversário", agora não me venha com essa de ano novo.
-Nunca imaginei que você pudesse ser tão grosseiro.
-Não, eu não sou grosseiro. Só não gosto de hipocrisia. Não entendo isso... Chegam as festas de fim de ano e todo mundo fica bonzinho, numa cordialidade invejável... Por um acaso as portas do inferno só se abrem em dezembro?
-Que mau-humor! Brigou com o mundo? Foi mal amado?
-Você ainda não conhece meu mau-humor. Hoje estou apenas me cuidando para que eu não brigue com essa coisa que vocês chamam de mundo, com tudo o que tem dentro. Inclusive com você.
-Então confirma a segunda hipótese?
-Mal amado? (Risos) Eu nunca fui amado, se quer saber a verdade. Não sei como é estontear alguém.
-Acabou de descobrir.
(Pausa)
-Não entendi.
-Entendeu sim. Minha vez de falar.
-Ótimo! Bom que minha champagne não esquenta. Fale logo.
-Não seja irônico, por favor...
-Prossiga.
-Sabe? Eu já sofri tanto nessa vida...
-Momento sentimental.
-Sofri sim. Sofri por não saber amar. Ou amei demais sem saber o que era sofrer...
-E...?
-E agora estou tentando aprender alguma coisa. Aprender a sentir. Aprender a demonstrar.
-Ah, que lindo! Te desejo um feliz aprendizado.
-"Feliz"? Ora, por favor... Também não seja eufêmico. Você quis que eu fosse sincero com você. E estou sendo. Por favor, faça o mesmo comigo.
-Desculpe... Acho que a champagne começou a subir.
-Tive a mesma impressão. Desculpas aceitas.
-Obrigado.
-Não agradeça. Entenda.
-Tô tentando...
-Enfim... Acho que nunca vou aprender a amar. É melhor eu desistir.
-Não diga isso. Pelo que eu entendi, você já sabe.
-Engano seu. Sempre há alguma coisa errada. Sempre me machuco.
-Não.
-Não o quê?
-Não há nada de errado.
-Ah não?
-Não.
-Então porque eu te amo???
(Pausa)
-E me amar é errado?
-Moralmente falando, sim.
-Entendo... Mas não estamos falando de moral. Estamos falando de amor. E mesmo assim, não há nada de errado no seu jeito de amar.
-Se é assim, porque eu sofro tanto?
-Talvez por eu estar errado no meu jeito de te amar.
(Pausa)
-Você me ama?
-Como você nem pode imaginar.
-Porque não me disse antes?
-Porque às vezes nós somos obrigados a amar em silêncio. Porque eu não consigo ainda oferecer o que você merece. Porque eu não sei ser amado. Porque eu mal sei me amar. Não posso me entregar se eu sinto medo de não te corresponder.
-Mas o amor vem com o tempo.
-Então deixe que esse tempo diga a coisa certa a fazer. Deixe que ele guie meu coração. Nossos corações.
-O tempo...
-Eu sei que é difícil, mas o tempo é a única coisa que pode definir o que realmente sentimos um pelo outro.
-É o único que pode acabar com tudo.
-NÃO! É quem pode marcar o começo de uma vida nova. De duas vidas. De dois corações. Juntos.
-Quanto tempo o tempo leva pra passar?
-Já passou.
-Não entendi.
-Entendeu sim. Eu estou aqui.
-Olhe... Está chovendo...
-Não mude de assunto...
-Saia da chuva.
-Não. Venha até aqui me buscar.
-Se eu pegar um resfriado, a culpa é sua!
-(Risos) Não vai pegar. Me abraça?
-Claro...
(Pausa)
-Feliz Ano Novo...
-Por quê?
-Porque eu te amo...
sábado, 29 de março de 2008
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